Se a secura é fato, então é muito bom saber o porque de sua existência, e muito melhor é saber que algo aconteceu, ou melhor, alguém acontece, pra que a secura fique molhada.
Os últimos dias têm sido secos pra mim. As coisas todas juntas pesam, os dias difíceis se mostram difíceis, além daquele discurso de dias difíceis enfrentáveis. As pessoas se afastam, estão todas sobrecarregadas, não há tempo, não há tempo! E me sinto desatendida, e, pior, me sinto sem atender. Faltam as atenções, as de receber e as de dar. Quase parece que falta o amor. As pessoas desapontam, decepcionam, e eu ainda fico surpresa por me encontrar surpresa diante de algumas reações humanas. Fico perdida. Fiquei perdida e confusa nos últimos dias.
E aí encontrei-me com a secura da minha alma. Quando isso acontece, quase não me reconheço. Só me reconheço porque sei dessa possibilidade de ficar seca, e porque sei como fico no meio de tanta secura. Mas não me reconheço no restante. Desreconheço a alegria que encontro com frequencia nessa alma que agora se mostra seca.
Reconheço a tristeza. De novo. E com ela, sempre, a profunda reflexão, o crescimento, a descoberta, o aprendizado, as conclusões. Mas, ainda assim, tristeza é tristeza. Secura é tristeza. E na secura tudo arranha, o que antes deslizava com facilidade agora arranha. As conversas não fluem, arranham. Secura e desentendimento. Desentedimento à toa, quase sempre à toa.
Me resta no meio dessa secura procurar alguma água. E aí me lembro sempre da história da secura da alma - a causa da secura, a causa ser começo de uma história bonita, o impacto dessa história em mim. Outrora eu pedia a Deus que me ajudasse a sair de vez dessa secura, a encontrar a felicidade definitiva, a encontrar meios de nunca deixar a alma secar. Agora penso, ou começo a entender, que a secura é cíclica, vem e passa - sempre. E é assim que deve ser, assim como são as estações: secura, molhadura, secura, molhadura. O sol esturrica a terra, as folhas, as plantas, as peles da gente. Aí vem o que é úmido e restaura o que era secura. E há muitos significados nisso, muitos. Assim como é pra terra, pras folhas e pra pele é pra alma.
Os frutos da alma também precisam de períodos de incubação, de gestação - igualzinho aos frutos daquelas árvores que sofrem com a secura. Sementes germinam seguindo um mesmo caminho. A vida segue entre securas e umidades, amenidades.
Há para a alma, no entanto, um tempo que não é contado assim como o das estações. Não há para a alma um tempo de secura de três meses, um inverno de três meses, seguido de um tempo ameno e primaveril também de três meses. Pra alma as coisas são tanto mais subjetivas e atemporais, e ainda mais imprevisíveis, quanto pode ser a própria alma.
E aí a secura da alma pode durar anos, décadas, o tempo de uma vida, assim como pode durar um dia, dois, uma semana, algumas horas. E secura e amenidades podem intercalar-se para a alma com a mesma imprevisibilidade. Já não peço mais a Deus um tempo longo e a perder de vista cheio de chuvas e umidade. Sei que terei isso no tempo da eternidade. Agora vivo à mercê das intercalações imprevisíveis da alma, à mercê do que Deus planeja para as estações de minha alma. E vou vivendo. E vou crescendo como cresce a planta que passa pelas estações.
Mas aprendi que há para a secura da alma gotas preciosas de frescor. E isso também faz parte daquela bonita história. Parte do processo cíclico da alma que seca e molha é encontrar esse frescor, em meio ao desespero da sede e à angustia da tristeza da secura. E encontro essas gotas na pessoa de Deus, ao conversar com Ele, em brigar com Ele e em fazer perguntas absurdas e juvenis. Mas disso já sabemos, o que me surpeende nesse momento em que escrevo estas linhas são os meios meios de encontras essas gotas. Esses outros meios também são frutos da bela história que começa com a causa da secura, mas apresentam-se bem menos visíveis como obras-da-mão-de-Deus-para-refrescar-a-alma. São essas gotas coisas tão corriqueiras e banais que é quase difícil de acreditar que possam ser fruto de um planejamento amoroso de um Deus que prevê temporadas de secura e se posta pronto a servir copos d'água bem gelados. Essas gostas são coisas simples como os poemas de Drummond sobre os ipês, as crônicas sensíveis de Cézar Dias, as histórias bobas de Eva Furnari, a música de John Coltrane e de Wes Montgomery, a voz de Jane Monheit, a sensibilidade de um amigo que põe a postos os ouvidos, a beleza das flores que são belas em qualquer lugar, até no supermercado, as gargalhadas que envolvem uma conversa, a cumplicidade espelhada num olhar, o abraço esperado a semana inteira, a caminhada de mãos dadas, as boas notícias, mesmo que pequenas, as cores, encontradas em qualquer lugar, o prazer de uma caminhada ou de um bom alongamento, o barulho do abrir da garrafa de água com gás, a saudade matada aos pontapés dos pulos de empolgação, as conversas que esclarecem e aliviam, um cumprimento sincero, um alô, um até logo terno e cheio de suspiros.
Coisas que são gotas e que aparentemente não me fariam lembrar de nenhuma história sobre secura e Deus, mas que me lembram porque realmente são gotas da graça de Deus na minha alma seca, alma que seca de vez em quando.
E assim sinto que Deus fala comigo o tempo todo, até quando ninguém diria que Ele fala.
Quando a alma fica seca, lembro de qualquer coisa que pode molhá-la, que pode trazer a ela alguma alegria. E na busca dessa qualquer coisa acabo encontrando a Deus, mesmo sem procurar. Na gratidão desses momentos acabo (re)compreendendo o significado de "lavar a alma".
